Surrender
Não era mau estar ali. Sozinha, com todo o seu tempo para ler, escrever e por vezes mergulhar nela mesma, vagueando pelas suas memórias que julgava há muito perdidas. A cama era desconfortável, e depois? Pelo menos podia dormir até às horas que querias e deitar-se às horas que queria. Por vezes decidiam tirá-la de lá, leva-la até uma sala sem decoração com apenas uma mesa, duas cadeiras e um espelho. Perguntavam-lhe porque o tinha feito? Ela não sabia… Nunca soubera… Por vezes nem sabia do que estavam a falar, como se a realidade fora daquele local nunca tivesse existido. Mas depois lembravam-na dos pormenores. Sim, tinha um namorado… E ele tinha-a traído? Não, ele sempre lhe fora fiel. Então batera-lhe? Bater? Nunca! Então porque o fizera? Então ela fechava os olhos e lembrava-se… O sangue que jorrara, manchando o seu rosto e o punhal. A boca que abria e fechava enquanto os pulmões clamavam por ar. Os olhos muito abertos e assustados, como os de um pássaro engaiolado. E depois o suave calor do sol no seu corpo quando se deitara à frente da janela aberta. – Porque o fizeste? Ela abria os olhos e sorria e não respondia como sempre. Mas, dentro de si, a resposta pulsava ansiando para sair. Tinha-o feito por puro e genuíno prazer.
